Fonema? Pra que Fonema?

img-225809-shutterstock (1)

O conceito de fonema aparece com insistente frequência em muitos livros didáticos destinados ao ensino fundamental. A intenção (sempre louvável) é levar os aprendizes a não confundir a letra, o sinal gráfico, com o som da língua que ela tenta representar. Apesar da boa intenção, a abordagem do conceito de fonema nesses livros é problemática. Primeiro, porque é difícil sustentar a suposta necessidade de, nessa fase da escolarização, despejar sobre os aprendizes a terminologia técnica da linguística científica ou, pior (porque confusa e incoerente), da gramática normativa. Veja as apresentações do conceito de fonema abaixo: elas aparecem em livros destinados ao 5o ano! Crianças que ainda mal sabem ler e escrever não podem ser submetidas a uma teorização complexa que exige alto poder de abstração. Segundo, porque, invariavelmente, a noção de fonema que esses livros apresentam está errada. Vamos ver por quê:

• “A unidade sonora mais simples da língua recebe o nome de fonema.”

• “Assim dizemos que as palavras da língua são compostas de fonemas (sons) e letras.”

• “As unidades sonoras que diferenciam as palavras buá, bué, buí, buó, buu recebem o nome de fonemas. Os fonemas, vocálicos, semivocálicos ou consonantais, são representados na escrita pelas letras.”

• “Fonema é a menor unidade sonora que se pode isolar em uma língua. Os fonemas têm a propriedade de distinguir as palavras de uma língua.”

• “Fonema é a menor unidade sonora de uma palavra falada.”

• “Os sons característicos de uma determinada língua são chamados fonemas. A representação escrita desses sons é chamada de letra.”

• “Todo som capaz de diferenciar, na língua falada, uma palavra da outra chama-se fonema (do grego phone, ‘som’). Na língua escrita os fonemas são representados pelas letras.”

• “Denominamos fonemas aos sons representados pelas letras.”

 Em todas essas definições de fonema ocorre um equívoco fundamental (além de outros, que não vou tratar aqui): designar o fonema como “som da língua”. Se é verdade que na palavra fonema está presente o elemento de origem grega fone-, derivado de phoné, que realmente significa “som”, nela também está presente o elemento -ema, igualmente grego, empregado na terminologia científica e filosófica moderna para a designação de conceitos abstratos como teorema, esquema, sistema, problema, morfema, semema, semantema, lexema etc. Isso já serve de sinal de alerta: o fonema é uma entidade virtual, uma abstração, jamais um “som da língua”.

Numa consulta ao dicionário Houaiss, a primeira acepção de fonema que aparece é realmente: “unidade sonora da fala; som da fala” — no entanto, essa acepção vem encabeçada pela seguinte marca: “obsoleto”. De fato, a definição de fonema como um “som da fala” foi abandonada pelos estudiosos da linguagem há mais de cem anos. O linguista polonês J. N. Baudouin de Courtenay (1845-1929) a partir de 1870 insistiu na divisão entre fonema e som, definindo o fonema em termos exclusivamente psicológicos. Para ele, o fonema era “o equivalente psíquico do som”. O linguista-antropólogo americano E. Sapir (1884-1939) também destacou o valor psicológico do sistema fonológico de uma língua: segundo ele, os fonemas seriam sons ideais que os falantes tentam produzir e os ouvintes acreditam escutar. Os livros didáticos que definem fonema como “som da língua” ou “unidade sonora” estão, portanto, teoricamente atrasadíssimos (algo como 130 anos!).

Se um fonema não é um “som da língua”, o que é, então? Voltando ao Houaiss, lá encontramos, como segunda acepção:

ling. est. unidade mínima das línguas naturais no nível fonêmico, com valor distintivo (distingue morfemas ou palavras com significados diferentes) […]

E agora? Por que nessa definição não aparece nada como “som” ou “sonoro”? E o que será esse nível fonêmico onde vive o fonema?

A linguística estrutural (a ling. est. da definição do dicionário acima) distingue dois ramos de estudo: a fonética e a fonologia (também chamada fonêmica). A fonética atua no plano da fala concreta, empiricamente coletável, captável por nossos ouvidos, isto é, a fonética estuda os sons da língua, que podemos, por exemplo, gravar (antigamente em fita, hoje em mídias digitais) e analisar em aparelhos cada vez mais sofisticados. A fonologia, por sua vez, se situa no plano do sistema, sistema que não está ao nosso alcance empírico direto, sendo, portanto, um construto teórico, um objeto abstrato que o linguista constrói depois de análises atentas do que ocorre na fala real, concreta. O sistema é, portanto, uma abstração. E é bem no nível do sistema, no nível fonêmico, que se situa o fonema. Donde se conclui que o fonema é também uma abstração. Daí ser impossível fazer o que alguns livros pedem: “pronunciar” ou “articular” fonemas — como pronunciar uma abstração teórica?

Se sairmos de gravador em punho Brasil afora e registrarmos o modo como as pessoas pronunciam a segunda consoante da palavra escrita MARÇO, vamos encontrar um leque de pronúncias diferentes: uma vibração simples com a ponta da língua; uma vibração múltipla com a ponta da língua ou com o fundo da garganta; uma aspiração forte, uvular; uma aspiração mais fraca, gutural; uma aspiração ainda mais fraca; uma retroflexão (o “R caipira”); uma quase-vocalização (algo como “maiço”); e até mesmo uma realização zero (algo como “maço”), entre tantas outras. Para cada uma dessas pronúncias a fonética científica criou um símbolo, que usamos (internacionalmente, aliás) para transcrever esses sons: [r], [x], [ɹ], [h], [Ɣ], [ʁ], [ı] etc. Esses, sim, são sons da língua, mas não são fonemas! A ciência fonética vai dizer que eles são fones (ou, numa outra perspectiva, alofones).

E o que é um fonema, então? Aqui, passamos do nível do concreto, do gravável, do audível e do pronunciável para o nível do abstrato, do apenas teorizável, do fonêmico, portanto. Os linguistas estruturalistas faziam a seguinte reflexão: todos esses diferentes fones (sons) não impedem que os falantes da língua reconheçam que se trata de uma mesma palavra, que se escreve oficialmente MARÇO e que significa, para todos eles, “o terceiro mês do ano”. Com base nessa reflexão, os linguistas concluíam: “então, existe no português uma entidade abstrata /r/, um fonema, que pode se materializar, concretamente, na fala audível, como os sons [r], [x], [ɹ], [h], [Ɣ], [ʁ], [ı] etc.” Observe que o fonema, entidade abstrata, vem representado entre barras oblíquas, enquanto os fones, sons de fato, são representados entre colchetes.

É um equívoco grosseiro, portanto, dizer que fonema é “som”. Mas seria então o caso de apresentar às crianças o conceito estruturalista clássico de fonema? É óbvio que não: esse conceito exige uma capacidade de abstração teórica que não se pode exigir de crianças (nem de adultos) nessa fase de escolarização. Uma outra razão para que os livros didáticos parem de insistir no ensino da noção de fonema é que esse conceito já foi abandonado, na prática, nos estudos científicos contemporâneos porque ele suscita muitas dificuldades teóricas, de modo que hoje se prefere estudar os traços distintivos em lugar dos fonemas completos.

O que realmente importa é levar os aprendizes a se conscientizar de que não existe correlação exata entre o que se fala e o que se escreve, entre som e letra e que, portanto, é falsa a ideia de que “é assim que se deve pronunciar porque é assim que se escreve”. Esse é o tratamento adequado que encontramos, por exemplo, na coleção didática assinada por Magda Soares (Português: uma proposta para o letramento):

“As letras do alfabeto representam os sons da língua, mas você vai ver que não há uma correspondência perfeita entre letras e sons.”

 Como se vê, para tratar dessa não-correspondência perfeita não é preciso recorrer à terminologia científica, ainda mais se for para usá-la de maneira errada, obsoleta, como se fazia antes do final do século XIX…

Source: http://e-proinfo.mec.gov.br/eproinfo/blog/preconceito/fonema-pra-que-fonema.html

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s