Diminutivos Antiguinhos

Nosso idioma usa as terminações -inho ou -zinho para formar seus diminutivos, enquanto o latim, nossa língua mãe, usava o sufixo -ulus, que chegou até nós em muitos vocábulos de uso científico. Falamos em pelezinha e película, em globinho e glóbulo, em rodinha e rótula, em corpinho e corpúsculo. Em cada par, qual é a diferença? Ambos os vocábulo são diminutivos, mas o primeiro é de emprego corrente, enquanto o segundo é mais erudito. O coelho da Páscoa traz ovinhos; no entanto, quando falamos da reprodução humana, só aceitamos a forma óvulo. Nossa garganta tem uma úvula, mas não uma uvinha, e os frutos não têm pezinhos, mas pedúnculos. Os falantes reconhecem a maioria desses diminutivos latinos, mas alguns certamente vão ser surpresa para meus leitores.

cálculo
Vem de calculus – literalmente, “pedrinha”. É o diminutivo de calx (“pedra calcária”), a mesma raiz de onde proveio o nosso cálcio. Como essas pedrinhas eram usadas para computar os pontos de vários tipos de jogos, o termo cálculo adquiriu o sentido atual de “medição, cômputo, avaliação”. Uma lembrança viva do significado primitivo pode ser encontrada no vocabulário médico, onde as pedras que se formam no corpo do homem ou dos animais ainda são chamadas de cálculos.

clavícula
De clavicula – literalmente, “chavezinha”, diminutivo de clavis, “chave”. São aqueles ossos achatados, com o desenho aproximado de um “S”, que ficam na parte frontal do ombro (as populares “saboneteiras”). Os anatomistas primitivos escolheram este nome porque o formato da nossa clavícula lembra a chave ou o ferrolho usado para trancar as janelas, nas casas romanas. É, portanto, um irmão distante do conclave, reunião de religiosos que é feita a portas fechadas.

escrúpulo
Mais uma pedrinha: no latim, scrupus era aquele tipo de pedra pontuda, cheia de arestas afiadas. Seu diminutivo, scrupulum, era a pedrinha incômoda, que todos nós conhecemos, que entra em nosso sapato e fica torturando o pobre pé. Numa bela metáfora, o termo passou a expressar o freio moral que a consciência nos traz, ao nos fazer agir com cuidado e meticulosidade, obedecendo a princípios morais. Essa idéia da consciência como um estorvo parece também estar por trás da personagem do Grilo Falante, na história do Pinóquio.

Prof. Cláudio Moreno.

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